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Quem de nós, um dia na vida, já não foi punido ficando sem comer chocolate,
ou não teve que escutar da mãe a seguinte frase: “eu te disse para não comer
muito chocolate, agora está tossindo muito!”.
Hoje, como especialista eu me pergunto: quem terá sido o primeiro e infeliz
acusador? Ou quando surgiu este estigma? Pois cientificamente não vejo
motivo para tamanha culpa, embora saiba que em alguns poucos casos possa
existir uma relação comprovada de causa e efeito. Porém, na maioria das
vezes a acusação é incisiva e de caráter irrevogável, ficando o réu (o
chocolate) à mercê do tempo, banido das prateleiras, dispensas e listas de
supermercado.
Voltando a falar sério, as alergias alimentares são condições clínicas muito
comuns na infância, porém entre as proteínas alimentares sabidamente
alergênicas e laboratorialmente comprovadas, o cacau com certeza não faz
parte. Na primeira infância (até 2 ou 3 anos) os alimentos mais suspeitos
são: leite, clara de ovo, trigo, milho. Na segunda parte da infância (a
partir dos 3 anos) já se incluem os frutos do mar (camarão, caranguejo), as
amêndoas de modo geral (castanha, amendoim), algumas frutas mais alergênicas
(morango, abacaxi, kiwi) e sobretudo os produtos artificiais com seus
corantes, conservantes, aromatizantes e espessantes, que tem elevada
capacidade alergênica, principalmente no desenvolvimento de quadros cutâneos
(urticárias e edema de olhos e lábios).
Agora imaginem comigo uma suposta situação: um pequeno ser (mais ou menos 3
anos de idade), com energia de fazer inveja nestes tempos de apagão,
correndo por toda a casa, e se escondendo nos locais mais empoeirados
possíveis, e que na hora do lanche da manhã troca facilmente a vitamina de
frutas por uma bandeja de queijinho tipo “petit suisse” (aquele que vale por
um bifinho!), associada a varias outras guloseimas que de tão coloridas
parecem um arco-íris. Depois do almoço vai dormir abraçado com o seu
“ursinho puffy”, no quarto com ventilador (de novo o “apagão”), e ao acordar
come uma pequena e singela barra de chocolate. Finalmente, quando sua mãe,
fumante, chega do trabalho e encontra seu filho com aquela maldita tosse de
“guariba velho”, adivinhem de quem será a culpa?
Prezados leitores, não tenho intenção com este texto fazer apologia ao
chocolate, muito menos criar em casa pequenos “chocólatras”, no entanto
lembro apenas que existem diversos outros fatores provocadores de sintomas
alérgicos, que estão bem na nossa frente. Basta querer enxergá-los!
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