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Embora não seja muito velho, o que depende, é claro, de um referencial,
cresci ouvindo minha avó dizer: - Maria prepara o almoço que o Plínio já
está chegando da repartição! Ficava imaginando a tal da repartição, um
local de arquitetura imponente, onde só se podia entrar engravatado e
que não tinha espaço, nem tempo para amenidades, só trabalho. Hoje, mais
esclarecido, e ciente de como funciona, ou melhor, como "não funciona"
um serviço público, fico pensando no meu avô, um "lord" com as mulheres,
no meio desta Babel.
Com certeza muitos de nós já tiveram oportunidade de
esperar, por qualquer motivo, dentro de uma repartição pública. No
entanto, quando não temos um "peixe" que facilita as coisas e estamos
com pressa, desistimos. Neste caso, perdemos uma rara oportunidade de
observar a "dinâmica" de um serviço público, que têm situações bizarras
inimagináveis, como a qual recentemente fui agraciado, e que já se
mostrou interessante mesmo antes de eu entrar, pois chegando na portaria
fui interpelado:
- Onde o senhor pensa que vai? Atendimento ao público só
pela parte da manhã!
Antes que eu dissesse que tinha uma reunião marcada, com a
Dona Márcia, na D.T.P. II, que, aliás, não sei o que significa e acho
que nem mesmo eles sabem o significado, o porteiro continuou:
- E tem que pegar senha! Acho bom o senhor chegar cedo!
Depois de esperar dez minutos, ele tentando, pelo interfone,
localizar primeiro a tal da D.T.P II, e depois a Dona Márcia, que
obviamente não estava em sua sala, ficou com pena de mim e me mandou
entrar.
Depois da entrada, começa a fase de busca ao setor da
D.T.P.II. Geralmente estas repartições são prédios antigos que vão
ganhando anexos, que desafiam as leis físicas da construção civil, e que
criam verdadeiros labirintos que, de repente, terminam em setores que,
infelizmente nunca são o que procuramos.
Finalmente cheguei a D.T.P.II. Uma cena que faria Felini
morrer de inveja. Para começar fui recebido pela secretária que não pode
me dar a mão, pois com uma segurava o telefone e com a outra um picolé
de anilina. Dividi o espaço minúsculo da ante-sala da secretária com a
Dona Sindoca, a simpaticíssima picolezeira, que aguardava sentada com
seu isopor, enquanto a Dona Mercês, a secretária, terminava de fazer a
coleta do dinheiro dos demais picolés distribuídos pelo setor. Fiquei
pensando como a Dona Sindoca conseguiu achar este esconderijo com tanta
facilidade, pois me pareceu "habitué" do local.
Após ser anunciado, entrei na ante-sala da diretoria da
D.T.P.II, onde cinco mesas estrategicamente dispostas serviam de assento
para oito funcionários, que conversavam alegremente e tentavam esconder
uma sacola cheia de calcinhas, das mais variadas cores e aromas.
Material este, provavelmente de alguma funcionária "sacoleira", assídua
freqüentadora da Ciudad del Leste, que tenta melhorar, com toda razão, o
seu salário. Felizmente não havia ninguém experimentando o "modelito"
paraguaio dentro da sala.
Finalmente fui apresentado a Dona Márcia, que muito
amavelmente resolveu o meu problema com um telefonema, duas carimbadas e
uma assinatura. Uma eficiência de fazer inveja aos países nórdicos mais
desenvolvidos.
Não é a falta de pessoas capacitadas e eficientes o problema do serviço
público, pois como a Dona Márcia existem muitas outras espalhadas pelo
país. O problema é como chegar na Dona Márcia! Ou seja, fazer com que os
demais funcionários tenham boa vontade, bom senso e desprendimento para
ajudar as pessoas necessitadas a chegar até a Dona Márcia!
E o vovô, será que na época dele já era assim? Será que não
é melhor eu manter viva em minha memória a imagem daquele homem pontual,
austero, elegante e de bom coração, que comandava sua repartição de
maneira irretocável? Acho melhor manter deste jeito. Vamos fazer de
conta que todas as repartições públicas deste país têm um vovô Plínio no
ponto mais alto de sua hierarquia, fazendo a estrutura toda funcionar
"redondamente".
Saber que a
repartição do vovô pudesse ser algo diferente daquilo que eu imaginava
seria perder um pouco a inocência da minha infância! |