EPIDEMIA DE DESCONHECIMENTO

          Muito interessantes as situações paradoxais que podemos encontrar na pandemia de AIDS. Inicialmente considerada por muitos como um castigo divino a ser sofrido pelos homossexuais, muito rapidamente o vírus demonstrou que não conhecia preferências sexuais, classe social, raça, credo ou idade. A preocupação com a prevenção alastrou-se na mesma proporção da epidemia, mas não com a mesma eficiência. O vírus mostrou-se muito mais difícil de combater e de prevenir do que se imaginava. Embora os meios de prevenção estejam disponíveis em todas as farmácias, não são utilizados como deveriam. Isto acontece por dificuldade financeira na aquisição dos preservativos, desconhecimento ou simples desleixo.
          Para muitas pessoas, principalmente nas cidades do interior, a AIDS é uma doença distante que não os ameaça e que não vai chegar na cidade deles. Imaginam que as pessoas que tem AIDS são muito doentes e não vão deixar as grandes cidades. Existe uma grande sensação de segurança. Mas, isso não acontece somente no interior. Muitos moradores das grandes cidades também acreditam que jamais serão contaminadas e, apesar do exercício pleno da sexualidade, muitas vezes com diversos parceiros, limitam sua proteção ao uso de anticoncepcionais hormonais. Isso quando se dão ao trabalho de fazer alguma coisa. Não levam em conta nem a possibilidade de contaminação por outras doenças sexualmente transmissíveis. Os adolescentes são o grupo mais ameaçado graças às peculiaridades dessa faixa etária. No entanto, o grupo mais indefeso é o grupo neonatal. A herança maldita do HIV tem feito muitas vítimas entre os bebês de todo o mundo, particularmente em países pobres. Também as mulheres, principalmente as que vivem em um regime conjugal estável, têm sido punidas por sua confiança em seus maridos.
          O que podemos fazer para reduzir o ritmo frenético de crescimento da AIDS? Será que o que tem sido feito é suficiente? Todas as estatísticas mostram que o que quer que façamos para prevenir a transmissão do HIV vale a pena. Distribuir camisinhas, incentivar seu uso, fazer campanhas na televisão, incentivar a abstinência e o início mais tardio da vida sexual, tudo ajuda, mas não é o bastante. É preciso que nossas crianças e nossos adolescentes recebam informações confiáveis sobre prevenção. Não basta uma campanha de vez em quando ou uma palestra anual. É preciso martelar todos os dias na mente de nossos jovens a necessidade de por em prática todos os ensinamentos recebidos. Quem pode fazer isso? O pediatra faz consultas semestrais, por vezes anuais e muitas vezes somente quando ocorrem episódios de doença mais grave. Muitos pais são ausentes ou não sabem como abordar os filhos sobre sexualidade. Religiosos somente atingem a porção da população que freqüenta os locais de culto. Sobram os professores. Estes passam muito tempo com as crianças todos os dias e durante a maior parte do ano. Têm como objetivo básico ensinar e ajudar a formar cidadãos. São pagos para isso. Mas não falam de sexo com seus alunos. Não falam porque não querem? Não! Não falam porque não sabem o que dizer, e, os que sabem, têm medo da repercussão. Têm medo de serem mal interpretados e de perder o emprego. Sexualidade é considerada um tema transversal. Ou seja, todos os professores devem conhecer e abordar. Mas, não o fazem. Ninguém cobra de ninguém. Os diretores de escola se omitem intencionalmente. Se algum pai cobra uma atitude mais eficiente da escola, a escola rebate cobrando a responsabilidade dos pais. Pais que a escola não preparou para isso. Pais que estão pedindo ajuda a quem realmente pode ajudar. Pais que são ignorados em suas angústias para evitar que seus filhos sofram as conseqüências da pior epidemia relacionada com o exercício da sexualidade, que se alastra pelo nosso país, que não é a de gravidez na adolescência, nem a de AIDS, sífilis, ou qualquer outra DST. A epidemia mais grave é a do desconhecimento.
          Já tive a oportunidade de conversar e fazer palestras em muitas escolas de muitas cidades brasileiras. Tenho um banco de perguntas formuladas por alunos e professores de sexta série até o segundo ano do segundo grau. A maneira de perguntar, de formular as perguntas varia de acordo com a série, porém o nível de desconhecimento é muito semelhante em todas as faixas etárias, inclusive de grande parte dos professores. Não existe a matéria “Sexualidade” nos currículos das escolas formadoras de professores. Eles não tiveram quem os ensinasse, como vão ensinar aos seus alunos? Ainda existe muita gente que acredita que não precisa ensinar sexualidade. Precisa! Ah! Como precisa!
          Voltamos ao mesmo ponto. O que podemos fazer? Há somente um caminho. Formar melhor nossos professores. Estabelecer de forma clara quem, dentro das escolas, é o responsável pela fiscalização do cumprimento das diretrizes relacionadas com o tema. Em cinco anos fazendo palestras, fui convidado apenas por uma escola particular para falar aos professores, e cerca de quarenta escolas públicas. Ainda é muito pouco. É necessário que outros colegas pediatras entrem nessa batalha para reduzir o desconhecimento geral sobre um tema tão importante. É minha crença que nós, pediatras, temos obrigação de entrar nessa briga de cabeça. È nossa obrigação defender nossas crianças. Um só recém-nascido que deixe de ser contaminado pelo HIV em conseqüência de nosso esforço será recompensa suficiente. Caros colegas, precisamos falar, pôr a boca no mundo, insistir até incomodar. Quem sabe, um dia, consigamos ser ouvidos por quem pode ajudar. Está na hora dos dirigentes das escolas, públicas e privadas, assumirem sua cota de responsabilidade e exigir de seus subordinados uma participação ativa e eficiente no combate à ignorância sobre sexualidade. É preciso agir e agir rápido. Nossas crianças agradecem.

   

Belém, maio de 2006.

Dr. Francisco Soares