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O PEDIATRA E O CELULAR
No consultório:
“Doutor(a), me desculpe! Poderia me dar o número do seu celular?
O pediatra anterior do meu filho não dava o número do celular. Como pode
um pediatra não dar o número do celular?
Prometo que só em último caso eu irei lhe incomodar”.
Mais tarde:
Triiim ........ “Boa noite doutor(a),
desculpe estar lhe incomodando”.
“Eu sou a mãe do Fulano, seu paciente. Ele começou a ter febre hoje e eu
já o levei duas vezes à emergência, mas não adiantou. O médico disse
que, provavelmente, seria uma virose. Mas, só medicou um antitérmico.
Como já está anoitecendo, o que eu devo fazer?”
Triiim ........ “Doutor(a) lembra da
Sicrana, sua paciente”?
Eu acho que ela vai gripar. Por favor, diga o que eu devo fazer para
evitar?
Triiim ........ “Doutor(a), boa
noite.”
Desculpe ligar esta hora. Eu cheguei em casa há pouco e percebi a pele
da minha filha um pouco irritada . O que poderia ser?
Após o advento dos celulares, essas
interrupções nas atividades diárias do pediatra têm se tornado cada vez
mais comuns.
Ocorrem, geralmente, cinco ou mais vezes por dia, 35 por semana, cerca
de 150 episódios ao mês. Uma verdadeira epidemia! Os pais ligam em
horários inusitados porque não sabem quando estamos no banho, almoçando,
atendendo um paciente, viajando, ouvindo uma palestra, e por aí vai.....
Esquecem que somos seres humanos, que precisamos descansar, dormir, se
distrair e que também adoecemos e necessitamos nos cuidar.
É uma extensão do consultório, sem honorários, que no cotidiano gera
“stress”, pois o médico não consegue se desligar de suas atividades
profissionais, já que “aquela arma”, o celular, a qualquer momento vai
disparar. E a cada “disparo”, a qualidade de vida se esvai ......
No contexto da vida moderna, este se trata, certamente, de mais uma
mudança de comportamento social.
Mas, como entender ou como explicar?
Nesta era da informação e da expansão do conhecimento, o que está
acontecendo com o discernimento dos pais? Nada mais sabem? Depositam
todo o conhecimento no outro? Onde está a capacidade do “cuidador”
cuidar de seus próprios filhos? Estão confusos? Com medo de tudo? Não
assumem nenhuma responsabilidade e por quase tudo tem que consultar? Ou
é o imediatismo generalizado que tomou conta dos pais?
Por isso, a febre tem que passar hoje, a criança não pode gripar e a
irritação na pele não pode esperar. E ainda, se percebe que quanto mais
discernida é a família, telefonam muito mais.
Antigamente, quando aqueles que são avós hoje (os dos telefones fixos)
criaram seus filhos, contavam com os conselhos dos mais sábios: os seus
pais. De fato, as crianças tinham vários “cuidadores” mais velhos que
dividiam a responsabilidade do cuidar e transmitiam com segurança o seu
saber.
Mas, essa epidemia seria apenas no Brasil? Tenho informações de
pacientes e de colegas pediatras, que na Europa e no Canadá,
dificilmente ocorre consulta por telefone, por mais que o paciente seja
particular.
O fato é que, a inquietude com essa questão me levou a pesquisar, e
encontrei em Gregório Baremblitt, estudioso dos processos de
auto-análise e de autogestão as seguintes colocações:
“Os povos - em sentido amplo, a sociedade civil – têm-se visto
despossuídos de um saber que tinham acumulado através de muitos anos
acerca de sua própria vida, de seu próprio funcionamento por de sua
experiência vital, a partir do momento em que aparece o saber
científico-tecnológico, fica relegado, colocado em segundo plano, como
se fosse rudimentar, inadequado, falso, pobre, infundado, ou no melhor
dos casos, insuficiente.”
“Então, os cidadãos se alienam e colocam o saber subordinado ao dos
experts. Perdem o saber e o controle de suas próprias condições de vida,
ficando alheias ao poder de gerenciar sua própria existência e assim,
dependem quase incondicionalmente do saber e dos serviços dos experts.”
Por outro lado, há de se examinar as duas faces da relação entre o
pediatra e os pais ou entre o médico e a sociedade:
Acontece que na nossa civilização, na nossa sociedade moderna, a
complexidade da vida social atingiu tal intensidade, que se caracteriza
por uma grande complicação interna, onde os próprios profissionais da
saúde estariam em uma “casta” detentora de tanto conhecimento, que só
eles têm o poder de decidir o que é bom ou não é para o outro. E na
maioria das vezes, sem levar em conta as necessidades e aspirações
individuais.
Como conseqüência e em conivência, no caso do médico, pagamos o preço
desta hierarquia “dando opiniões”, a todo o momento, pelo telefone
celular. E como a “marcha do progresso” científico-tecnológico não tem
volta, pode-se deduzir que essa situação tem uma forte tendência a se
agravar, comprometendo nossa qualidade de vida cada vez mais.
Além disso, é bom lembrar que um diagnóstico elaborado pelo celular (sem
exame físico) é fácil se errar e que uma prescrição ditada pelo telefone
pode ser distorcida. Portanto, é necessário bom senso na conduta
orientada pelo celular.
Tudo isso é preocupante. Precisamos nos reunir e refletir sobre o código
de ética profissional, sobre o sistema de saúde nacional ou sobre uma
nova abordagem educativa para os pais, para que possamos nos posicionar
como cidadãos humanos (tanto no sentido biológico, como humanístico) e
competentes, como a sociedade espera de nós.
“Doutor, poderia me dar o número do seu celular?”
- Que este, não seja apenas um desabafo profissional individual. Mas,
que frutifique. Que nos faça melhorar! |