A violência banalizou-se,
tornou-se lugar comum e a sociedade não se acorda para esta
epidemia. Estamos preocupados com a de Dengue, mas a brutalidade, o
desamor, a loucura, enfim... sei lá o que têm matado e seqüelado
mais aqueles que, não pela lei, mas pela caminhar natural da
humanidade teríamos de proteger e amar.
A família, célula “mater” da sociedade, aos poucos sendo substituída
pela anti-família, não é mais composta por papai, mamãe, filhos,
tios e avós carinhosos. A sua composição é a mais variada possível:
papai e sua nova paquera, mamãe e seu outro namorado, o irmão que só
é filho do papai ou da mamãe e surge a figura da “madrasta”, a
megera que espanca e do padrasto, o monstro que violenta. E 60% das
violências domésticas são praticadas por estes atores. A criança não
tem mais vínculo, nem de sangue e nem de carinho. A sociedade se
deteriora e o sacramento do casamento que duraria “até que a morte
os separe”, passa a ser gerido por um contrato legal com cláusulas
de direitos e deveres, mas só dos cônjuges. Os direitos das crianças
não são lembrados e não existe mais uma referência moral a seguir.
Onde está o olhar sério do papai, o não carinhoso da mamãe e o sim
gostoso da vovó? Não há limites!
Aí, as violências acontecem naturalmente! Meu Deus do Céu,
naturalmente!
Mas a pequenina Isabella não sofre mais. O seu pequeno mundo acabou
e tão depressa. Mas ela não sofre mais. Acabou! Ainda bem! Estaria
ela aqui, se viva fosse, para sofrer novas agressões, esganaduras,
xingamentos e vôos nada acrobáticos. A titia e o vovô preocupam-se
apenas em apagar as pistas do crime. O vovô, mas como? Não acredito!
E nós aqui parados, catatônicos, a tudo assistindo em frente à
televisão. Perplexos, mas inertes. Ih! Já nos esquecemos de Pethrus,
de Marielma e da menina de Goiânia. Os outros, meu Deus, eu nem me
lembro os nomes! Já passou!
Mas, fato consumado, o peito está lavado, condenamos aquele monstro!
Até quando? Infelizmente até que ocorra o próximo infanticídio. Até
o novo vôo de um pequenino que, pela própria natureza nunca,
aprendeu a voar! Nunca lhe foram dadas asas, a não ser as da
imaginação, fértil e feliz que acredita no amor, em Papai Noel, em
fadas e duendes. Quanta beleza desperdiçada!
Aí sim, iremos às ruas de novo:
- Justiça! Justiça! Justiça!... (leia-se: Vingança! Vingança!
Vingança!...)
Ora! Não seria violência também a alta taxa de mortalidade infantil?
A desnutrição por desmame precoce? As doenças não evitadas pelas
ações primárias? E as evitáveis pelas vacinas? As condições
subumanas dos meninos e meninas de rua? A alta prevalência de
gestações em adolescentes? As violências domésticas, ocorridas sob a
proteção do manto sacrossanto do lar? E a exclusão social, a grande
responsável pela multicausalidade? Mas a violência sexual vende mais
jornais! Os pequenos jornaleiros dos semáforos já sabem disto e
expõem aos transeuntes inocentemente a sua própria desgraça num afã
enorme de “descolar um troco” na venda de um matutino que só nos
traz mais dor.
- Tio, foi o pai dela que a jogou da janela? – Pergunta atônito, o
menininho que não entende o absurdo que está acontecendo.
- Papai vai fazer isto comigo? – Olhar de medo!
Pior! Titio não vai poder lhe responder! Porque não sabe e não quer
se envolver. Tem medo de entender o que está acontecendo e ser
obrigado a tomar uma atitude. Mas qual? Sinto-me inerte, sofrido,
cabisbaixo... Chorando mesmo, confesso!
La vem de novo o meu machismo! Porque não admitir que nestas
situações, todos choram, mesmo que sejam lágrimas escondidas por
vergonha delas ou da própria incompetência de ousar e fazer
diferente. Lágrimas, estas grandes companheiras dos grandes
sentimentos de amor, saudade, alegria e sofrimento e que somente as
crianças sabem empregá-las na hora certa e, sem falsidade,
substituí-las de maneira mágica por um sorriso terno.
Seja qual for o sentimento, elas estarão sempre conosco! Não temos
escapatória! Mas até quando minhas lágrimas serão de dor?
Escondidos atrás do medo (“Não posso me envolver!”), da impotência
(“O que posso fazer?”), do cinismo (“Eu já faço a minha parte!”) e
da covardia (“Eu não sei de nada!”), tentamos justificar a nossa
omissão.
Permitam-me, pois, citar Padre Antonio Vieira:
Pelo que fizeram, serão condenados muitos.
Pelo que não fizeram, sê-lo-ão todos.
A omissão é um pecado que se faz não fazendo.
Tento dormir, pensando em “mea culpa”, mas a maldita televisão só me
traz mais lembranças da Isabella! Um sorriso lindo que não existe
mais! Porque, meu Deus?
Penso! Quando será que teremos um novo corpinho inerte, ferido,
sofrido e quebrado, achado no jardim por um porteiro atônito e
incrédulo? Ou os gritos de dor ouvidos por uma vizinha que apavorada
nada podia fazer? De quem terá sido os gritos? Dela ou do irmão
menor de três anos. E se o bebê assistiu à tortura de sua irmã, o
que será de sua cabecinha a partir de agora? Pára! Não quero nem
pensar!
E ainda ouso me perguntar:
Será que as Isabellas, os Petrhus e as Marielmas algum dia me
perdoarão?
Gente! E o padre Antonio Vieira?
Meu Deus, quanta vergonha. |
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