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Esta semana tivemos uma reunião da sociedade paraense de pediatria, onde
estiveram presentes os comitês científicos de cada sub-especialidade
pediátrica. Nesta ocasião discutia-se sobre possíveis assuntos para a
próxima jornada, quando surgiu o tema sobre “o estigma da criança repetente
na escola e suas implicações psicossociais”. Como já estávamos falando sobre
coisas sérias demais a um par de horas, fiz um comentário sabendo que
mexeria com os “brios” das demais colegas:
- Com certeza esta criança repetente foi asmática na infância !
Falei isto, puxando a sardinha para a minha lata, pois faz parte da minha
especialidade tratar de crianças asmáticas, as quais tem alto índice de
absenteísmo escolar e por isso, podem repetir de ano na escola. É claro que
isto só acontece com os asmáticos graves ou aqueles mal controlados!
Porém, a minha intervenção foi suficiente para um processo em cascata, onde
cada colega também interveio, puxando a sardinha, que uma hora destas já
estava mais esticada que borracha de estilingue.
- Ela até pode ter sido asmática, mas com certeza não mamou no peito!
Bradou nossa colega do comitê de aleitamento materno, quase ao mesmo tempo
com a representante da neonatologia:
- Acho que na verdade, tudo começou com um parto complicado que evoluiu para
um sofrimento fetal e culminou com anóxia neonatal.
Embora estivéssemos brincando, todos os exemplos referidos poderiam
determinar condições que justificassem um baixo rendimento escolar,
culminando com repetência e possíveis implicações psicossociais.
No entanto, esta situação serve para nos alertar, de que o objetivo dos
nossos esforços e conhecimento, é a saúde da criança no mais amplo aspecto,
e não apenas setores do seu bem estar. Devemos, como pediatras que somos
sobretudo, olhar mais longe, estarmos atentos para implicações futuras
daquela condição que está necessitando de nossa intervenção.
Nossas crianças, com certeza, não são apenas um hemograma, uma escala de
Apgar, uma IgE ou algumas proteínas do leite materno. A busca pelo
aperfeiçoamento técnico e científico é válida, mas a visão limitada ou
segmentada de um único ser é, no mínimo, preocupante.
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