“Pediatria não vende remédio”

O surgimento de especialidades e sub-especialidades faz parte do desenvolvimento científico de uma categoria. Na medicina não poderia ser diferente e por isso, já faz tempo que Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, Cirurgia Geral e Clínica Médica deixaram de ser o foco principal ou objetivo de médicos recém-graduados. Não sou contra esse novo rumo profissional, mesmo porque também sou especialista, mas o que me preocupa é o pouco valor que se tem dado aos médicos generalistas, os quais podem não ter tido oportunidade ou assim fizeram por vocação, por paixão, e ninguém pode tirar a grandeza de sua escolha.
Na verdade, está acontecendo uma inversão de valores, pois um bom médico generalista tem muito mais mérito, exatamente por necessitar de muito mais conhecimento prático-teórico do que vários especialistas, os quais se não tiverem uma base generalista sólida em sua formação, serão sempre limitados e sem visão.
E esta inversão de valores inicia um ciclo vicioso que parte do status do especialista, passa pelo desprezo dos convênios médicos que remuneram proporcionalmente menos os generalistas, atinge a industria farmacêutica que destina menos verba aos eventos científicos que não falem de temas específicos, afinal quem vai querer patrocinar um simpósio sobre Violência na Infância, sobre Gravidez e Depressão na Adolescência ou quem sabe a Criança no Contexto da Sociedade Moderna.
Por fim, este ciclo culmina com a evasão cada vez maior das chamadas cadeiras básicas do curso médico, e com as afirmações cada vez mais freqüentes dos recém-formados:
- Eu vou fazer cosmiatria!
- Eu vou me especializar em quadril!
- Eu não, quero fazer só medicina nuclear!
Será que algum dia, prezados leitores, vamos voltar a atender o paciente inteiro, como gente, como realmente ele merece !!

 

 

Dr. Bruno Paes Barreto
E-mail: brunopb@terra.com.br